A bandeira dos Estados Unidos no Marston Quad
Zena Almeida-Warwin
18 de fevereiro de 2026
Então é verdade, afinal, que uma bandeira americana tremula no campus, hasteada no Marston Quad, e não apenas em feriados nacionais, como eu havia suposto. Não sei por que ela me afeta assim, como parece tímida, frágil no vento de outono. Irônico, dada sua glória patriótica. Eu entendo. Estou nos Estados Unidos, afinal. Ainda assim, não consigo afastar a pergunta. Por quê? Por quê aqui? Por quê agora? Por quê, afinal?
Penso, em contraste, na minha afinidade sem rival com a bandeira brasileira. Os dois países compartilham fantasmas conhecidos: corrupção, censura, crises de identidade nacional, ainda que se manifestem de formas distintas e desiguais. Talvez seja revelador que tantos brasileiros da extrema direita tenham passado a empunhar a bandeira americana no lugar da própria. Ela carrega algo que a bandeira do seu país já não sustenta. Ódio.
Tudo isso me parece uma simulação. Uma montagem estratégica de símbolos, controlada por uma montagem estratégica de oligarcas. Controlada por ninguém. Eles governam a riqueza, o capital, a lei, praticamente tudo. Quando olho para o vermelho da Old Glory, o “branco puro” e seu azul, é neles que sinto estar olhando, eles olhando de volta para mim. Tenho o impulso de estremecer, mas o contenho. O que algumas pessoas que conheci não dariam para estar no meu lugar. Sentada num banco no Marston Quad, sob o sol do sul da Califórnia.
Lembro-me de estar na Bahia quando criança, imaginando essa mesma bandeira desde a beira do mar. A empolgação que eu sentia era mais alta que o mastro, uns nove metros.